“O amor é imponderável e universalmente irresponsável. Não há gravidade que chegue para se falar a sério do amor e é por isso que não vale a pena tratá-lo com gravidade.
O amor é um sentimento adolescente, sabes, com tudo o que isso tem de cor, sol e sonhos estendidos sobre a areia. E as coisas fluem, devem fluir, quanto mais tempo melhor, e mesmo as palavras que então dizemos só servem para exprimir aquilo que nós vivemos na relação amorosa, e isso não é necessariamente a essência do amor.
Digo, és tão bonita, e exprimo não um juízo estético, mas um estado de alma, quero dizer que não há nada tão bonito como tu e que essa beleza me comove e que é dessa comoção que irrompe o amor que sinto por ti. Percebes? Quando amo, sou incapaz de descrever exactamente o que sinto, mas o que é mais extraordinário é que me estou completamente nas tintas para descrever aquilo que sinto, e é essa diferença, essa consciência da inutilidade das palavras, essa renúncia voluntária a compreender o que é o amor, que me deixa perceber que amo.
O que eu digo, digo-o então porque é preciso que a voz soe entre dois amantes, que ela repercuta no atordoamento do coração, que ela chame ao outro o que queremos que o outro ouça dentro de nós.
excerto de «A Expressão dos Afectos» de António Mega Ferreira